Eu te fito tu me fitas
(1946 aos
nossos tempos)
Histórias de flertes, paqueiras
e amores no Cariri
Referências Bibliográficas:
PENSAVENTO, Sandra Jatahy. História & História
Cultural,História &...Reflexões, Autêntica Editora.
Le Goff, Apologia da
História, Sindicato Nacional dos
editores de Livros, Rio de Janeiro, 2002.
CAPELATO,Maria Helena R.
Multidões em Cena, Propaganda Política no Varguismo e no Peronismo, Papiros
Editora.
SANTOS, Jair Ferreira d.
O que é Pós-Moderno, 23. Reimpressão. São Paulo: Brasiliense, 2005.
BURKE, Peter,A Escola
dos Annales (1929 - !989) A Revolução Francesa da Historiografia. 6.ed.São
Paulo:Unesp,1990.
REIS,José Carlos Reis,
Escola dos Analles, A Inovação em História, São Paulo: Paz e Terra, 2000.
FICHER,Helen. Sexo Milenar,Veja 25 anos Reflexões para o Futuro, Sao Paulo, p.28-39,
1993.
Eu te Fito Tu me Fitas
(1946 aos nossos tempos)
Histórias de
flertes, paqueras e amores no Cariri
A presente pesquisa
tem como objetivo coletar depoimentos de moradoras e moradores da região
caririense que viveram sua mocidade num passado próximo anos 50 e suas
posteriores décadas até chegar aos nossos dias, as entrevistas serão realizadas
com senhoras, senhores e jovens que tenham idade entre 15 anos e 85 anos,
elegemos como ponto de partida a década de 50 como o primeiro cenário para a
partir dele conhecermos as gerações posteriores afim de perceber quais as
especificidades das relações de afetos entre homem e mulher dessas décadas,comparado-as
com as especificidades das relações hoje, focando costumes e usos materiais do universo dos enamorados da
sociedade sertaneja passada e atual. No intuito de ligar as duas realidades,
bem como diferenciá-las mostrando as mudanças sofridas nessas interações
afetivas, nas suas maneiras de pensar, agir e celebrar as afetividades entre
feminino e masculino. No decorrer dos tempos percebemos a existência de
variadas formas de expressões amorosas
Essas são influenciadas pelos meios midiáticos , pelos
valores familiares, religiosos e pela sede de inovar e renovar que as juventudes
embaladas pelos ideais de liberdade mudam conceitos e os preservam , os moldam
dando novas inspirações as gerações futuras e construindo novos imaginários
coletivos. Esse sentimento cantado nos bairros das cidades e no campo
caririense inspiraram e inspiram corações apaixonados, os seresteiros das noites
enluaradas, as danças,brincadeiras , as histórias dos viventes caririense.
Seus anseios de felicidades e suas dores se moldam a valores
tradicionais e ao mesmo tempo estão em constante transformação. Relacionando tradição e inovação constrói-se
novas formas de sobreviver e de se unir ajustando-as as suas realidades sociais
marcada pelo trabalho e pelo sofrimento, o ser sertanejo encontra conforto em
sua religiosidade. No
passado e no presente essas relações vão
unindo e criando novas formas de pensar, de vestir,de
comer, de amar, de opiniões, de praticas sexuais, de amizade, das
especificidades dos rituais que envolvem o universo amoroso no sertão
caririense .
As fontes orais colhidas nos permitirá uma vivência com componentes
usuais materiais,sociais e também culturais
do passado que envolviam o universo dos enamorados,o papel da mulher e
do homem como ser sentimental e o valor dado aos componentes que dão sentido ao
presente,percebendo o passado no presente e vislumbrando quem sabe um futuro.
Considerando as realidades e as relações sociais amorosas como fatores de impulsão na
formação de conceitos no presente e no passado o
conhecimento das histórias afetivas dos
viventes de outrora e os de hoje nos dá
ferramentas para a comparação das diferenças e as similaridades dos variados
momentos sociais ao qual as manifestações de afeto se revelaram e se fizeram e
se fazem.Essas mudanças ocorridas no
campo dos sentimentos não se desvencilham do surgimento dos sentimentos individualistas no Brasil, dos
ideais de liberdade,das propostas democráticas de igualdade difundidas pela Europa do século XIX, contudo
consideraremos nesse contexto a igreja, sua desvinculação do Estado e a
religiosidade que permeia esses momentos históricos. Suas influências nos contextos propostos,
compreendendo esses lugares para assim
compararmos diferenciando e assimilando
suas similaridades
As memórias dos viventes as suas representações coletivas,
as comparações partindo do presente numa perspectiva da História/Memória serão
elementos que darão o norte para a
pesquisa. Para esclarecer como a pesquisa vai trilhar esse caminho elegemos alguns comentários de sociólogos,
antropólogos e historiadores nos quais a
pesquisa se pautará. Começaremos
pelas observações do historiador (Peter Burke), mas ao longo da dinâmica e dos
eventos que ocorrerão durante a sua execução outras fontes secundárias serão
norteadoras do projeto de pesquisa aqui proposto:
“[...]
acrescenta , porém,que a comparação é feita de maneira a permitir a constatação
das diferenças”.
(BURKE,Peter,
pag.36)
“Ora,
esse tempo verdadeiro é por natureza, um continuum.É também perpétua mudança.
Da antítese desses dois atributos provêm
os grandes problemas da pesquisa histórica[...]
(LE GOFF, Jack, pg.55 e 56)
“Ao valorizar o
passado o historiador faz uma inversão no seu conceito’
(REIS,
Carlos, pg. 12 e 13)
“A massa pós moderna, no entanto é consumista,
classe média, flexível nas idéias e nos costumes. Vive no conformismo em nações
sem idéias e acha-se reduzida e atomizada (fraguimentada) pela mass-média
,querendo o espetáculo com bens e serviços no lugar do poder. Participa, sem
envolvimento profundo, de pequenas causas inseridas no cotidiano – associação
de bairro, defesa do consumidor,minorias raciais e sexuiais, ecologia.
(SANTOS, José Ferreira dos, pg. 90)
[...]
em suma as sensibilidades estão presentes E homens produzem em todos os tempos. Pensar
as sensibilidades, no caso, é não apenas mergulhar no estudo do indivíduo e da
subjetividade, das trajetórias de vida, enfim. É também lidar com a vida
privada e com todas as suas nuances e formas de exteriorizar ou esconder – os
sentimentos”.
(PENSAVENTO,Sandra
Jatahy, pg. 58)
“Também
acredito que estamos ficando mais eróticos, não menos. Diz-se dos adolescestes
de hoje que eles estão expostos a zilhões de megabytes de informações sobre
sexo e que essa overdose irá atrofiar seu senso de exploração e experimentação.
Não é verdade. De uma perspectiva antropológica, durante milhões de anos
os filhos de seus ancestrais estiveram expostos à cena de seus pais fazendo
sexo, lado a lado, apertados na pequena cabana que abrigava a família
inteira[...]”
. (FICHER,Helen, 1993.
Pg.33)
Essas observações dão um grande contribuição para as
propostas da pesquisa, para as formulações conceituais do trabalho histórico e
para a construção de um passado através das suas memórias dos usos materiais
sociais da época, os identificando no presente , percebendo as diferenças entre
presente e passado, pretendendo lançar um olhar para as relações afetivas
das próximas gerações.
Para melhor entendimento algumas fontes orais já coletadas e
transcritas aqui relatam as experiências enamoradas de algumas senhoras e senhoras
em épocas diferentes ,certamente essas fontes primárias colaborarão para a
noção dos momentos, das situações
ao qual cada depoente viveu,
conduzindo a pesquisa as comparações das especificidades, diferenciando-as no
intuito de esclarecer os processos históricos sofridos pelos enamorados
caririenses. No final dos anos 40 início dos anos 50 a Senhora Maria Nazaré de
Deus nascida no ano de 1926 hoje com 85 anos vivia na cidade de Jardim, onde
seu pai tinha um pequeno comércio, lá se vendia comidas e também bebidas como
ela diz “vendia da tudo”. Relata como
se deram suas experiências enamoradas com riqueza de detalhes e lucidez. De
início conta como foi o desenrolar do seu namoro com seu falecido marido,
lembrando de objetos que fazia parte do seu cotidiano, amizades, religião,
flertes e particularidades do seu tempo de namoro e também de casada, porque
acreditamos que casados também namoram.
“Eu estava noiva dele, e ele foi pruma festa
e arrumou uma namorada e eu fui lá onde ele estava junto dos colegas dele, e os
presentes que ele me deu eu joguei nos pés dele e disse a ele que ele
desaparecesse das minhas vistas, aí eu arranjei outro, mas eu quando vi esse
primeiro que eu arrajei, vi cruzar as pernas aí eu caí fora, pensei esse é
boneca (gargalhada). Aí depois arrumei outro me correspondendo com um que tava
em Fortaleza, e esse eu já tava comprometida. Que meu pai queria muito. Aí fui
puma festa e arrumei outro, quando eu cheguei meu pai quase que me batia porque
dizia que era um rapaz muito bom e eu tinha feito um papel muito feio, aí eu
deixei pra lá aí voltei com Juarez, quando eu voltei com Juarez aí ele fazia as
serenatas e dizia na música tanto que eu amei a Madalena e hoje amo a Maria Nazaré.Aí meu pai disse Maria tu
tá escutando tão falando no nome de tua fia, aí ela respondeu é a música
Joaquim que é assim e eu olhando por a brecha da janela. Eles tavam tão bebo
que tiravam a roupa e ficava só de cueca ( gargalhadas). A filha de dona
Nazaré chamada Liduina diz: a esculhambação
já existia era naquele tempo.Dona Nazaré: Não! mas era meia noite e Jardim era
no escuro num tinha luz não, era tudo
bebo. Os tecidos pra meus vestidos vinham
do Recife, eu comprava em toda loja, toda semana cada dia de festa era um
vestido e a anágua era aquela bem dura, os vestidos era de uns tecidos de seda
bem fininha e outros era mais grossos aí eu tinha um vestido verde que era de
preguinha e bordado que eu bordei, eu bordava eu num sei mais nem pra onde vai
mais,meu vestido de casamento foi feito aqui no Crato com Léo Piacó. Costureira
famosa. O nome do meu marido era Juarez Prestes de Alencar Peixoto, Prestes não
é família. Preste é porque o pai dele simpatizava com a Coluna Prestes queria
que eu botasse o nome de Liduina de Leocádia eu disse não, mas ele não era
comunista. Só quem tinha rádio era Francisca Lócio e Padre Alcântara. Todo
domingo eu ia pra missa e fazia parte da
cruzadinha e ajudava o padre rezar na hora da missa, viajava com o padre pois
havia a reclamação do coração de Jesus e dei uma queda bem grande com o cavalo
de prata e a felicidade é que eu tava com uma calça comprida, se não tinham
visto era tudo. Na Semana Santa eu ia todo dia pra igreja, na sexta feira santa
eu passava na igreja até de madrugada, eu dizia a meu pai eu gostava muito de
rezar mas também gostava de dançar, eu dançava no prédio que pertencia ao povo
da UDN nesse tempo era UDN e PST, meu pai era do PST, mas eu só ia pras festas
da UDN porque os rapazes de lá dançava
muito bem e as músicas eram melhores.Era Samba, Xote, Macha, Baião já tinha
Luiz Gonzaga, quando havia festa de Santo Antônio a gente ia pros sítios
arrecadar esmola pra igreja aí andava muito o povo dava galinha, capão aí o
padre fazia leilão na festa em Jardim.Quando havia festa de São João a gente ia
pro sítio. A serenata que Juarez fez foi bem pertinho da porta lá de casa,aí eu
ficava olhando pela brecha da janela era bem escondidinho eles saiam de ponta
de pé, meu pai num deixava eu abri a porta não.As músicas que a gente escutava
era Aurora, Jardineira, tinha uma que dizia ‘Aí que chamego bom, aí que chamego
bom”. Os namoros era na calçada, namorado do lado e a mãe no méi, aí eu dizia _
Mãe Juarez quer um cafezinho,quando elas saía ele me dava um beijin na testa e
um de lado escondido (risos), o café era feito no fogão a lenha, tinha pão de
ló, queijo manteiga, Juarez viajava na segunda e chegava na sexta ia trabalhar,
ele trabalhava na SUCAM, passei um ano namorando com Juarez , a metade do ano
passei namorando escondido, um dia meu pai chegou e disse _ Hó, eu num quero
você namorando escondido, você tem casa e é nas vistas de sua mãe. Eu namorava
escondido na casa de uma amiga. Um dia a mãe da menina pegou ele me beijando eu
fiquei doidinha pedi até pelo amor de Deus que ela num dissesse lá em casa. Lá em casa tinha uma pipa de
cachaça. Ai tinha uma amiga que ia lá pra casa um dia ela disse: Nazaré vamo
tomar uma pra poder a gente tomar banho,aí eu disse na., um dia ela bebeu e se
embebedou aí deitou e papai perguntou _Nazaré o que essa menina tem? Aí eu disse _ ela tá com uma
gastura. A gente lavava o cabelo com sabão, e pra ficar bonito colocava óleo de
mamona,passava no rosto carbono rosa como ruge, e já tinha batom, se perfumava
com leite de colônia e no cabelo fazia uma trunfinha na franja pra cima e fazia
duas tranças.Usava um sapato preto de saltinho de couro e dava um laço em cime
e também tinha uma sandália que amarrava na perna baixinha. Quando eu saí
grávida pela primeira vez eu num saia na rua de Jardim com vergonha do povo, do
que eles iam dizer do que eu fiz (risos). A gente fazia leite pra os bebês com
a massa de e a mamadeira era o vidro do
Biotônico Fontora, eu num dei de mama não tinha pus no meu peito.Depois nós
viemo morar no Crato.
O Sr Gilberto Borges e a Sra.
Francisca Amorim Borges professora aposentada chamada por Zildene e ele por
Zito, casados a 55 anos, moram hoje no Sítio Campo Alegre ao sopé da Chapada do
Araripe, alguns hectares deixado de herança pelo o pai empreendedor do Sr. Gilberto, seu
nome era Francisco Borges dono da Usina
Babaçu onde se produzia sabão e óleo de babaçu usina muito famosa na década de
50. O casal cedeu seu depoimento no quintal gramado e bem cuidado do seu sítio,
lugar bastante agradável com brisas frescas e muitas fruteiras. Geraram oito
filhos desses três nasceram no mesmo dia, hoje com dezesseis netos e seis
bisnetos se divertem com os pequenos no agradável sítio onde residem. Em relação
a surpresa da chegada dos trigêmeos o Sr.
Gilberto brinca dizendo ‘eu fui
dormir com cinco filhos e quando me acordei
tinha oito”. Ele hoje está com 85 anos e ela com 79 anos, ele descendente da tribo indígena cariri, tem os cabelos lisos e
grisalhos, uma pele bem corada e saudável para sua oitava década de vida. Ainda
sobe em árvores, limpa mato e tem seus dentes conservados , uma aparência muito boa. Percebe-se que em
sua mocidade foi muito cobiçado pelas moças da cidade pela seus dotes físicos e
também pelos suas posses financeiras. O
casal relembrou os tempos que os casais enamorados se encontravam nas praças,
calçadas e cinemas ao som das amplificadoras a luz de geradores na cidade do Crato. O Sr.
Gilberto Borges e Sr. Francisca Amorim Borges deram sua contribuição a pesquisa
contando alguns fatos que guardam bem em suas memórias:
Sr. Gilberto :“As amplificadoras ficavam nas ruas dos Cariris lá em cima, tinha outra
no seminário, e tinha outra lá no Alto da Penha, era Wilson Machado o locutor,
era nessa faixa 1946, 1950 , era o pessoal ia pra Siqueira Campos paquerar, dia
de domingo ficava rodando como boi, nesse tempo tinha o cinema Cassino, o
Moderno. Tinha as serenatas eu ainda fui bem umas três no tempo de Wilson
Machado, iam muito era lá pro colégio Santa Teresa, naquele tempo só tinha esse
colégio aqui no Crato, tinha as Internas a noite ai eles iam cantar lá, (a
senhora Francisca rir), as que tinham namorado.Tinha uma música de Galbir
Peixoto que saia muito na impressa de propaganda na amplificadora era de Galbir Peixoto A
Pérola e o Rubim, saia as de Nelson Gonçalves também, Orlando Silva, Ângela
Maria. As roupas era tudo roupa moderna.
A Sra. Francisca interrompe e diz :” Ha
minha filha você precisava vê como esse
aqui era vaidoso, era conhecido. Ele volta a falar: “Naquele tempo as moças não usava calça. nera Zildene ? A roupa era pra
frente, talvez hoje não tenha umas roupas modernas como aquelas era paletó, era
colete, eu usava colete naquele tempo.Mandava fazer num tinha roupa feita
naquele tempo não.eu mandava fazer por Rivadave, fazia bem feito os palitos as
calças, mas aqui acolá aparecia as camisas feitas e a gente começou a comprar.
Sra Zildene: “Eu achava tão bonitinha uma
camisa que Zito tinha era fechada um decote de canoa, e abotoava nos ombros.Era
lindo esse modelo. Sr Zito:” Naquele
tempo as moças só usava vestido. Sra. Zildene: Os vestidos era bem rodado, as anáguas ia pra açula de tão rodada. Era de algodão, de linho, organdisa.Sr.
Zito : “Naquele tempo Zildene num tinha
biquíni, esses biquínis de hoje não. De que era? Naquele tempo usava muito
roupa de borracha eu tinha uma roupa de borracha, era amarela, palito e calça
de borracha, era um tecido que tinha que a bicha chega voava assim .Era bonito
era nem todo mundo tinha não roupa de borracha. Nas serenatas eu ia só pra
ouvir. Esse Vicente Madeira o pai de Pitorra que morreu com pouco dias o irmão dele Audísio que tocava muito
violão bem e Wilson Machado levava pra eles tocarem eles tocavam muito tinha
Geraldo Tristeza, cantava. Cantava muito bem, tinha Geraldo Maia um bocado de
cantor véi ai, que ia pras serenatas cantar, lá no Santa Tereza, elas ficavam ouvido abriam as
janelas, abria mas as irmãs não deixava as vezes, que ali era de freiras, eras
as internas, vinham de fora, vinham estudar aqui no colégio só tinha o Santa
Teresa, vinha gente de todo canto estudar aqui, vinha do Piauí, vinha do
Pernambuco, todo mundo estudar aqui e nesse tempo tinha o Diocesano num era
Diocesano era Ginásio Diocesano só tinha esses dois colégios e a Associação Comercial e o Seminário São José . Sra
Zildene:” Olhe a Praça Siqueira Campos
era o ponto de atração da gente, todo domingo a gente tinha que colocar um
vestido novo pra ir pra lá, aí ficava rodeando. Lá era que a gente arrumava os
namorados, nesse tempo não era paquera era flerte era flertar, a gente ficava
olhando pra eles assim volteando e eles ficavam em pé assim, era um tempo muito
bom. Eu sempre usei cabelo curto já era a moda o povo já usava. Sr Zito:” A amplificadora da Siqueira Campos ficava
onde é aquela loja de material de construção vizin a Duda de Thomas Osterne era
ali, era umas cadeiras de Gerdau era pequenininha o Wilson Machado lá dentro
falando , Aderbal Carvalho também era locutor, Vicente Alencar o avô de Careca
também era locutor. Se encerrava nove hora da noite era uma música bonita pra
se encerrar o programa. Sra. Zildene:”
ali na rua dos Cariris, papai tinha alugado uma casa pra gente lá. Aí eu
escutava a amplificadora “alô fulana de
tal você é linda, eu estou apaixonado por você”, aí ficava dizendo num sabe.
Você conhece um rapaz assim, assim, pois olhe eu estou aqui esperando era
assim. Ficava os recadinho. Você é linda, você é num sei o que. Namorava na
praça, namorava....agora os namoros era diferente dos de hoje, pra haver um
beijo tinha que ser escondido demais, até pra pegar na mão era uma coisa de
outro mundo, eu me lembro que uma vez eu arranjei um namorado.....ha, há,há, eu
nem me lembro mais quantos namorados eu tive,eu tava lá casa das meninas de
Sandra de Marli, aí Marli namorando com Miguel Teles, aí o meu namorado boto a
mão no meu ombro.aí Miguel disse : _epa você não é noivo...H.á,há,há. Sr.
Zito:” Eu tive umas três ou quatro
namoradas antes de casar, tinha uma de Lavras da Mangabeira,tinha uma que era
do tempo que ela terminou e foi pro Recife, morava ali por trás da clínica de
Dr. Luciano, casinha fraquinha mas ela era estudante ela era de Milagres, duas,
três tinha umas três ou quatro namoradas. Sra Zildenia: Tinha Lurdes. Sr Zito:” Aquilo ali foi pra frente”(expressão de
aborrecimento).Sra. Zildene:” Mas foi
nesse tempo”. Sr. Zito:” Aí no Crato
mermo só tinha essas três.Tinha que ir pra casa as vezes se encontrava lá na
praça, elas iam pra casa nove horas, nove e meia, elas iam mais as colegas pra
praça, num faltava não. Nesse tempo a Praça da Sé num tinha nada não, era chei
de taboqueira, capim, agente pastorava as vaca ali, era bem pertin, só tinha a
praça Siqueira Campos, na praça da Sé num funcionava nada só tinha a Igreja.
Num existia xampu não, lavava o cabelo com sabonete, sabonete Gessi e Levi há,
há,há. Os rapaz usavam muito era brilhantina no cabelo a bicha dexava o cabelo
duro pra pentear. Num tinha lambreta não só uma aqui e acolá .Mas na praça
tinha os carros de praça na praça tinha,
Pedro maia, tinha Maru carro antigo 1946, era os carro antigo, carro de
capota de pano”. Sra. Zildene:” Era
tão bonito o carro que Zito tá dizendo, Zenilda foi se batizar nele, nesse
Pedro Maia”.Sr. Zito:” As moças
entravam no carro ia para o clube, saia da praça pras matinal, vesperal, as
festas a noite,pouca gente tinha carro particular, o filho de papai que tinha
carro era rico. Era tudo carrin de praça, em 1950 foi quando papai comprou o
primeiro jipe, naquele tempo usava jipe eu comprei um jipe pra mim, papai todo
ano trocava, aí quando começou a aparecer aquelas camionetas Ford aí papai
comprou bem umas três, todo ano ele mudava pra uma nova, tinha uma amarela era
bonita, tinha uma azul também, e quando chegou aqueles carros era um sucesso,
os carros era 46, 28,29. Todo domingo tinha vesperal lá no Crato Tênis Clube em
1950, 51, 52, tinha a orquestra e as vezes vinha de Fortaleza aquele conjunto
Iranildo e seu Conjunto tocava bem , armaria! quando Iranildo vinha as festas
eram um sucesso,tinha Deoclécio, tinha Nélio Cleitom tudo era músico, tudo era
bom,era bolero, era Samba canção,era tango, tocava mais bolero, tocavam música
internacional”. Sra. Zildene:” As
festas eram animadas demais. A matinal terminava 13:00 hs, num era Zito?Eu
sempre ia à missa aos Domingos’. Sr. Zito:”Os sapatos daquele tempo era mais
bonito do que os de hoje, de hoje é uns sapatos fei bicudo. Tinha a sapataria
Azteca que era de Aldemir irmão de Modesto, ele trazia e vendia de um material
bonito assim tinha toda cor né, tinha amarelo, tinha bege as cor bonita é,
camurça, sapataria Azteca. Só tinha a sapataria Azteca aqui no Crato”. Sra
Zildene: “ Agora ele só vendia coisa boa,
ele vendia tudo vendia roupa, sapato vendia tudo”. Sr Zito: “sapato da moda”. Sra Zildene:” Eu usava sapato alto. Eu gostava muito de
sandália alta até parecidas com as de hoje”. Sr. Zito: “Os tecidos a gente comprava aqui, tinha
lojas aqui no Crato, tinha As Casas Abraão, as Casas Pernambucanas tinha várias
lojas a gente comprava os tecidos linho branco”. Sra. Zildene: “Tinha A Casa Jucás, Eu casei em 57 essas lojas
já tinha todas”. Sr. Zito:” As casa
Abraão . Aquilo é antigo de 1920, o pai de Zélia de Hipólito tinha uma loja ali
na Zé Carvalho, Casa do Retalho ali perto dos caixão dos defuntos eu me lembro, que Zé Correia ele
trabalhava lá,a Casa Abraão era uma casa mais antiga de tecido, vendia
chita,linho todo tipo de tropical naquele tempo tinha um tal de tropical pra
fazer roupa, tinha muita casa de tecido no Crato naquele tempo num tinha roupa
feita. As costureiras de Zildene, tinha Loló Piancó, meu alfaiate era Rivadave,
Geraldo Emídio era que fazia minhas roupas”.Sra. Zildene:” tinha Anita que costurava muito bem, irmã de
Maria e de Olivia tinha aqueles armarinhos que agente comprava batom, as
maquiagens, na Cratense vendia também, já nesse tempo existia a Cratense, já
tinha ruge, já tinha batom”. Sr. Zito: “Agora
os perfume daquele tempo também era bom era Flor de Maçã, era Whith Magnólia
era uns perfume bom.era uns perfume bom danado”. Sra. Zildene :” mais era bom”.Sr. Zito: “era Dernié Gri comprava lá na casa Abraão”.
Sr. Zito:” Era uns perfume que durava num
se acabava não. Num era enjuento naum os perfumes.O melhor que tinha era Flor
de Maçã. As serenatas saia nos bairros, ia as casas onde eles tinha as
namoradas, aí para os bairros. Ali no Santa Tereza tinha uns que tinham as
namoradas lá interna, ia tudo pra lá e os que num tinha.......isso era doze
hora da noite que começava era na noite de lua”. Sra. Zildene:” Sim nesse tempo no Crato não tinha luz a
energia era fornecida pela Nascente, chegava cedo, mas a luz tão fraquinha. Quando
era doze hora apagava, aí quando tinha a Babaçu tinha o motor lá na Babaçu,
quando apagava tudo quanto era de luz na rua aí acendia a da Babaçu”. Sr.
Zito:” Eu me lembro de um verso que eles
recitavam “Em Brancas Praias” eu num me lembro mais não(risos). Sra.
Zildene : tinha uma de Orlando Silva que
dizia “esta será a última canção que eu cantarei ao me despedir”aí eu num sei
mais como era, aí tinha uma parte que era recitando “com os olhos rasos d’agua,
os olhos cheios de mágoa, ó mulher eu nem me lembro. Achava tão bonita”.
Sr. Zito : “Ângela Maria saía muito”.
Sra. Zildene : “aí conversava e cantava
de novo é de Orlando Silva Última Canção”. Sr. Zito:” quem gostava de poesia era Bagage que gostava dessas coisas. Lá no
Santa Tereza era no segundo andar”. Sr. Zildene: “Fiz uma casinha branca lá no
pé da serra pra nós dois morar.... nananannnn.... não me lembro, depois tu vem,
eu vou me lembrar de mais coisas.
A vendedora de bombons da Praça da Matriz também deu seu depoimento,
estava em companhia da sua filha
enquanto relatava seu encontro com o amor em sua juventude, hoje está com
cinqüenta e sete anos. Sua jovem filha
achava muito engraçado vê a mãe falar sobre o assunto e enquanto ria
prestava atenção ao relato. A senhora sentada em um banquinho de ferro a sombra
de um Juazeiro, gesticulava muito com as
mãos e sorria com a boca sem os dentes
superiores relembrando os encantos da sua juventude.
“meu primeiro namorado
foi meu marido, tive dezenove filho e ainda hoje vivo com ele, muito bem. Agora
no meu caminho já houve gente pra destruir nossa vida, mas eu confio muito em
Deus e até que me saí, ela não teve chance de tomar meu marido. No meu caso eu
fui uma menina, que nunca gostei de beijo em boca, nunca tive chance não,
quando eu comecei a namorar com meu noivo que é o meu marido, era meu pai minha
mãe, perto de mim ou então minhas irmãs, nuca deixava..... a filha da
vendedora de bombons interrompe e diz: “Tinha
as Cartas que ele mandava nera mãe?” Ele me chamava Mileid, e era ele que
escrevia e mandava uma pessoa entregar pra mim, eu tinha dezesseis anos,
passamo namorando dois ano, aí se casemo, nois morava ali no terreno de Elídio
Monteiro no Coité, era arrendado, e a gente trabalhava de roça e até hoje nois
trabalha de roça. As minhas colegas dizia que a gente tem que se arrumar, mas
meu noivo mermo dizia que pra mulher pra ser bunita num precisa se arrumar não,
ele dizia que não precisava se arrumar não e até hoje eu levo minha vida. De vez
em quando eu coloco um batom,ah de brinco eu gosto eu tenho um monte, mas eu
num dô bem valor a usar não, pulseira eu gosto, anel eu gosto. Ai meu Deus do
Céu, mulher era aquelas pulseiras de bijouteria feita daqueles aramin amarelo
minha mãe comprava e me dava aquele relogin também minha mãe me dava e a gente
ia pra festa, mas agente só andava pra festa mais pai, mais mãe ou alguma tia
mas num era tão de confiança não, nós andava
quando era festa na Praça Padre
Cícero, no aniversário do Padre Cícero, era eu tinha de 13 a 14 anos até 15 aí
quando eu completei 16 anos aí eu me casei e pronto minha vida é assim, nunca
dancei não, tinha Luiz Gonzaga ainda
hoje eu gosto de Luis Gonzaga,Roberto Carlos eu adoro ele as música de hoje eu
num gosto naum.
Essas histórias nos diverte e também nos intriga as
histórias são de lugares diferentes e de momentos diferentes , mas estabelecem
ligações intrínsecas. Mesmo com o passar
do tempo , observamos que a história da vendedora de bombons é carregada de
moralismo, de valores construído sobre o amor da carne, o desejo como causador
de dores de males de doenças e nesse sentido ela diz, que acha nojento beijar
na boca, ato que permeia o mundo dos enamorados e que todo casal sente o desejo
de fazer principalmente quando está no início das paixões, e todos os depoentes
revelam que esse momento do ato de beijar era algo intimidador, mas podemos
perceber que a vendedora em seu depoimento deixa bem claro que ela não gosta de
beijar,. Nas nossas cabeças vem a pergunta: Como ela não gosta de beijar e teve
dezenove filhos?E a resposta também vem ela mantém relação sexual com seu marido sem beijar. O segundo
depoimento os relatores não comentaram sobre seu noivado, nem sobre o namoro
dos dois, mas sei que eles fugiram e passaram cinco dias em algum lugar que
pretenderemos saber. As Cartas da senhora vendedora também serão alvo da
pesquisa aqui proposta. Como também as cartas que a nossa Maria Nazaré também
recebia e também enviava para o seu namorado em Fortaleza. Pretendemos
enriquecer os depoimentos tentando enfocar os
dias encantados que rodeiam os enamorados antes do ato de casar e as
noites de núpcias dos noivos também serão alvo de nossa pretensiosa pesquisa. Entrevistaremos a Senhora filha do
acendedor de lampiões da rua Dr. João Pessoa como também seu filho. Ex-prostitutas
do bairro Gesso,como também as atuais, amantes de honrados pai de família, os boêmios,
seresteiros, radialistas donos de bares como o Sr Nenen, geração Paz e amor
década de 70, universitários e estudantes do ensino médio público e privado dos
nossos tempo. Colheremos através de jornais das décadas passadas casos de fuga de noivos,de eventos sociais,
afim de saber o que acontecia na cidade e quais as tendências coletivas. Comparando e diferenciando-as nos
distanciamentos temporais e atemporais e nas proximidades temporais e
atemporais.
também por
transformações mesmo mantendo suas tradições em seus inscritos e suas
concepções ela também teve que se renovar em seus discurso introduzindo
neles assuntos tabus como a liberação dos métodos anticonceptivos, o surgimento
de novas doenças sexualmente transmissíveis e outros mais que permeiam o nosso
tempo ainda hoje acredita que todas alas se fizeram por se
tratar das vontades Divinas ao sem nesse
passado com sua cultura inspirada em experiências românticas e arraigada aos
valores morais religiosos o indivíduo
acredita em Deus, crê-se que Deus trará
soluções divinas às suas realidade de fome de pobreza acalentadas nessa
simbólica representação da existência do Ser divino ,as sertanejas e os sertanejos se de uma vida plena de felicidade
é também aquele que uni e também separa os casais. Nessa sociedade os discursos
religiosos pensados e justapostos são massificados na intenção de se criar o mito e dele partir a essência do
existir definindo e redefinindo o
valores tradicionais influenciando os
usos e costumes .Esses valores se
modificam transformando e conservando particularidades que lhe dão uma
indentidade num dado momento histórico refletindo no individuo. Essa identidade
é criada coletivamente dentro de suas tradições e das inovações que surgem com
o passar dos anos. Homens e Mulheres vão se relacionar afetivamente prorizando a tradição dos costumes e as moldando ao seu tempo baseadas As relação amorasas se
modificam e se molda ao moderno arraigada aos valores da família formada moralmente em concepções religiosas construída no campo coletividade vivido pela
sociedade vão mudando usos e costumes nos viventes do passado.